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Entrevista – Gisleno Feitosa

24 de fevereiro de 2012

Portal Otorrinos 24 Horas conversou com o ginecologista-escritor Gisleno Feitosa sobre informação, medicina e claro, muita literatura. Você conhecerá agora um pouco desse incansável médico que busca a maneira mais fácil, didática e divertida de ensinar as suas pacientes e leitores maneiras mais saudáveis de se viver. Nascido em Iguatu-CE em 49, é membro do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Academia de Medicina do Piauí, Academia de Letras do Vale do Longá e Sociedade Brasileira de Escritores Médicos, ele é cronista, contista e Poeta. Publicou  “Vide Bula para Viver Melhor” e “Gisleno Feitosa em Verso e Prosa” e foi co-autor de “Florilégio Poético” e “Médicos Contam Contos”, livro editado pela Sociedade Gaúcha de Médicos Poetas.

Gisleno teve contato com os livros e letras quando seminarista em Fortaleza-CE, participava do programa de rádio local e já era entendido e interessado por arte e cultura desde essa época, tem uma família de tios e primos historiadores e escritores, mas trocou o seminário pela medicina e depois da residência, conheceu a cidade de Barras-PI em pleno carnaval. Não deu outra, se apaixonou pelo estado, mudando-se com o tempo para a capital Teresina, onde até hoje reside e possui consultório.  Suas palestras são verdadeiras aulas ricamente ilustradas, engraçadas e o principal: esclarecedoras e motivadoras.

* Qual a necessidade e o poder da escrita em nossa sociedade atual?
GF - Acredito que se as pessoas lessem mais adoeceriam menos.A literatura tem o poder maior que a medicação: ver, refletir, conhecer – pode curar muita coisa, tem um poder extraordinário na cura das pessoas. Clientes chegam aqui com vários exames sem entenderem o que acontecem com eles, sem saber que a prevenção é bem mais simples do que o tratamento.

* Você acompanha esse dinamismo da escrita/literatura na internet? Autores dialogando e interagindo em blogs, comunidades, etc.? Como analisa esse mundo internético a serviço da informação médica e literária?
GF -
Tenho alguns contatos sim, me dou bem com essa ferramenta – computador. Mas tenho mais contatos com outros atores através das academias que faço parte: Escritores Médicos e de Ciências do Piauí, por exemplo. Meu “guru” é o professor Cineas Santos e me reúno com a turma nas reuniões da Academia Piauiense de Letras.

* Como foi adequar tão bem o lirismo ao tema médico, ginecológico, sua especialidade? Qual a sua preocupação na hora de criar? Existe algum método?
GF -
Não tenho método algum. Tudo vem na cabeça, na hora, pela necessidade de transmitir aos meus pacientes. Na maioria das vezes busco entender como eles poderiam aprender sobre sua situação sem depender de remédio. Mas escrevo sobre temas variados, quando vejo alguma imagem bela ou uma linda situação, não tenho problema e escrevo também.

* Você é um escritor que participa e é atuante em nosso grande Salão do Livro do Piauí. Tem algo preparado para esse ano? Como estão os planos de lançamentos ou publicação de textos? O que esperar desse belissimo evento?
GF -
Troco qualquer congresso médico pelo SALIPI. Aprendo bem mais do que aprenderia em um congresso de medicina. Aprendo sobre coisas novas, variados assuntos, virei até um “Salipologista”! Acompanhei vários autores, produtores, pessoas de fora que participam desse belo salão e que por ventura passam mal, sofrem algum pequeno acidente ou se sentem com alguma indisposição – o Salipologista está lá. É o especialista para assuntos aleatórios e médicos, o clínico geral do SALIPI.

* Quais os livros considerados de estimação e os mais bem escritos segundo seu gosto pessoal? (Se quiser citar por autor, também, fique a vontade)
GF –
Ah, gosto de muitos autores…o primeiro é o José de Alencar. Iracema, é o máximo. Leio muito, gosto muito de Moacir Scliar, Armando Bezerra, Aldir Blanc, Max Nunes, Zé Dantas, Joubert de Carvalho, Guimarães Rosa, Anton Tchekhov, Whilliam Maugham, João Carvalho, Humberto Guimarães, Leandro Cardoso, Salomão Chaib, Dagorberto de Carvalho Jr. e por aí vai…

* Indique pontos culturais ou de lazer em Teresina, que você aprecia.
GF – Oficina da Palavra! O melhor ponto cultural da cidade. Frequento todos os sábados as palestras da Academia Piauiense de Letras.

* Quais seus interesses além da literatura e medicina?
GF –
Costumo dizer que tenho “fases” de hobbys. Já fui alucinado em filmagens, filmava tudo com aquelas câmeras antigas enormes. Depois foi fotografia, fiz um curso e tudo com o Quaresma (Antônio Quaresma, fotógrafo profissional). Adoro ouvir música clássica e instrumental. Coloco o cd do Erisvaldo Borges que “fura” de tanto tocar. Passo horas pesquisando, escrevendo e lendo no computador. Gosto demais também de assistir dvds que nem o do Clã-Brasil, conheces? (o entrevistador não conhecia, mas agora conhece e também indica: http://www.clabrasil.com.br/)

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Dr. Gisleno em seu consultório

 

* Soube que toca o hino de Teresina ou do Piauí todos os dias ao iniciar o expediente em sua clínica. É verdade? Qual a mensagem e a motivação em fazê-lo?
GF –
É verdade. Toco todos os dias e durante o dia também as vezes. O motivo principal é apresentar às pessoas de fora, de outro estado, que não conhecem bem o Piauí o que temos por aqui. Proporciono mais esse contato, pois pelas letras dos hinos pode-se conhecer um pouco mais desta terra e das pessoas também.

* Encerramos nossa conversa com um texto escolhido a dedo pelo autor, pertencente ao livro “Gisleno Feitosa..em Verso e Prosa”, “Medicina e Literatura”:

“Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico, conheci o valor do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte.” (Guimarães Rosa).

Medicina e Literatura, desde os remotos tempos, são atividades afins, intrinsecamente irmanadas. A Medicina, tão antiga quanto as doenças, sempre se interessou pela Literatura, e com esta convive harmoniosamente. A Literatura, do mesmo modo, é tão arcaica quanto aquela, haja vista as manifestações alfabéticas rúnicas e o folclore das inscrições rupestres, legado de antigas civilizações que construíram a história.

Na história da ciência, assim como em qualquer forma de expressão da inteligência e das emoções do homem, o passado nunca fica isolado no tempo, mas persiste atuando como estímulo e exemplo para as futuras gerações. O médico sempre esteve ligado à cultura, tendo influenciado, em diversas ocasiões, o destino da humanidade, quer através de obras científicas ou de verdadeiras peças da literatura universal.

Infinita é a plêiade dos médicos que, mesmo escrevendo sobre assuntos técnicos, imprimem tratamento literário e humanístico aos seus escritos. Como exemplo podemos citar William Somerset Maugham que, aos 23 anos, formado em Medicina em Heidelberg (Alemanha), e já exercendo a profissão no St. Thomas Hospital (Londres) consagrou-se como escritor com seu segundo romance “Servidão Humana” (Ed. Globo, 1980), onde conta o drama do médico Philip Carey, quase arruinado pela companheira Mildred. A. J. Cronin com “A Cidadela” (Ed. Record, 1937), Connan Doyle, criador do famoso Sherlock Holmes e uma infinidade de nomes poderiam ilustrar esta galeria.

A história da Medicina é relato cumulativo de uma seqüência de vitórias sobre a ignorância e a superstição. Na Bíblia, a mais famosa obra já escrita, pelo menos um de seus autores, Lucas, exercia a arte médica, tendo sido consagrado, por este motivo, patrono da Medicina e das Artes.

Se vem de Deus o sopro da vida ou o último suspiro da alma, também vem Dele o divino dom da cura, ensinado aos discípulos de Lucas, os sacerdotes da Medicina. Como mortal que é, o médico não passa, todavia, alheio às emoções que o cercam.

Ajudar a trazer uma nova vida ao mundo, colaborar com seus conhecimentos para a cura ou para amenizar as dores ou, ainda, sentir a constrangedora impotência diante da morte, geram emoções reprimidas que, traduzidas em palavras, refletem a essência da alma humana. Este reflexo imprime-se com mais sutileza em quem dedica sua vida a conhecer as minúcias do corpo, através da arte de curar as mazelas físicas e mentais.

A proximidade com os outros seres humanos, o convívio diuturno com o sofrimento, o compromisso inalienável com a vida, facilitam a inspiração e a intuição.

Em tempo de tantos deuses, tantas crenças, tanto desrespeito ao ser humano em nome da tecnologia, é confortador saber que há outras trincheiras onde se luta arduamente em favor do belo, da estética, da verdade e dos sentimentos reais da alma.

“Sem conhecer a força das palavras é impossível conhecer os homens”, já dizia Confúcio, legislador chinês (551-469 AC.).

As palavras são para sempre. O livro imortaliza. Sublinhar um sentimento através da palavra é um dom dos curadores de espírito, aqueles artistas que com sutileza dão graça à vida, enternecem os que sofrem, emocionam e dão esperança.

Diz um provérbio espanhol que “El médico que solo sabe Medicina ni Medicina sabe”.